Seu companheiro dormia tranquilamente, numa paz tão profunda que faria inveja num anjo. Teve um sentimento tão bom, quase dolorido, que sentiu seu peito apertar. Não conseguia dormir, entretanto, ainda que sentisse o cansaço pesar na base da coluna e nas pálpebras que deslizavam de quando em quando. Sem se levantar, espiou pela janela entreaberta que amenizava a noite de verão, de uma escuridão que não lhe deixava adivinhar que horas eram. Ficou ali, deitado, ouvindo o movimento dos carros lá fora que iam e voltavam, cheios de gente, certamente, muito menos sortuda que ele. Suspirou.

Fechou os olhos, e subitamente compreendeu que agora era feliz. Não sabia dizer como ou quando tudo aquilo havia começado, talvez quando os beijos tornaram-se mais longos ou os abraços mais demorados, mas não tinha como saber. E não tinha importância, nenhuma. Desfrutavam de uma intimidade sutil, quieta, que flutuava em seu peito e transbordava pela mão de dedos compridos que tocava o rosto do amante com toda a devoção. Uma intimidade que superava as personalidades complicadas que construíram para si, com o gosto doce da saudade de tudo de bom que haviam perdido em algum lugar do caminho.

Kazimierz havia encontrado sua alegria em coisas simples. Nos longos cabelos negros, enrolados em seus dedos, no aroma forte do perfume dele, na sua horta de cenouras, nas risadas discretas tarde da noite, no denso silêncio entre os dois, no ronronar de um gato e um filhote de leão.

Uma felicidade singela, mas de braços fortes, que o erguiam da cama todos os dias de manhã, que vivia com prazer e toda a gratidão.

A felicidade deles. A sua felicidade.

Se precisasse contar, diria que ela residia nos espaços entre os dedos entrelaçados dos dois.

meu amor, essa é a última oração
pra salvar seu coração
coração não é tão simples quanto pensa
nele cabe o que não cabe na despensa
cabe o meu amor
cabem três vidas inteiras

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Tanto insistiram que conseguiram fazer o homem se sentar no cômodo improvisado que lhes servia de cozinha e depósito ao mesmo tempo. Um deles lhe empurrou sorrindo uma taça de ambrosia, enquanto outro servia vinho do Porto num cálice pequenino. Gostavam muito mais do velho mestre, agora que não estavam mais sob sua autoridade. O homem, por sua vez, se não ficava pela companhia, tinha dificuldades em recusar a sobremesa.

- Eu não posso demorar, ainda tenho que encontrar o meu...

- Ele! - a voz alta, vinda da entrada da cozinha, lhe interrompeu. Ele fez que sim com a cabeça num gesto modesto.

A presença de Nikita surgiu sem sobressaltos num dia qualquer, fazia já algum tempo, e não demorou a tornar-se natural, como era a existência distante - mas cheia de um acolhedor senso de realidade - das avós ou as ex-esposas do restante do pessoal. Nenhum deles conhecia o homem em muito mais que fotos e o burburinho dos corredores. Marion lembrava-se vagamente de um borrão esguio de cabelos escuros, que vira na tela luminosa do celular que lhe foi empurrado.

- Vocês já estão juntos faz tanto tempo, não é?

- É. - ele confirmou de novo.

- Vocês deviam mesmo era se casar logo, então.

A colher parou no meio do ar e o homem ergueu uma sobrancelha, com a surpresa de quem ouve um impropério e decide, no segundo seguinte, que é uma ideia que faz muito sentido. Riram-se todos, e a casa dos espíritos, de súbito, parecia muito menos morta. Às vezes, era bom lembrar que ali estavam todos vivos.


*blows u a all the kisses*