Verônica de Maupassant trazia consigo os modos da alta classe e, claro, tudo o que a nobreza cobrava, fossem seus gestos ou ideais - soube adicionar a estes, entretanto, seus próprios redemoinhos, que faziam da figura esguia e severa uma pessoa única, marcante a todos que chegavam a conhecê-la. Desde muito jovem, mostrava um humor inteligente e uma beleza que contava muito a seu favor. O que tinha de mais impressivo eram seus delicados olhos negros, de pálpebras pesadas e sobrancelhas finas, erguidas em aborrecimento, que lhe davam uma expressão pouco interessada no que quer que fosse. O olhar, entretanto, era vivo e sagaz, esquadrinhando tudo a sua volta, e cheio de interesses e conclusões silenciosas. Entre todas as coisas, uma mulher muito forte.

Por conveniência, casou-se com Leonardo de Santo Doria aos seus vinte e três anos, sendo o noivo dez anos mais velho, príncipe de uma casa real destronada, de algum lugarejo que a nobre senhora desconhecia. Destronado, sim, mas ainda cercado de tudo o que o poder financeiro podia lhes oferecer. Ainda que o tempo dos casamentos arranjados houvesse passado já fazia muito, a ideia de um casamento real lhes era interessante, especialmente na altura em que andavam ás voltas com a ideia de recuperar seu poder político - se isto acontecesse, precisavam oferecer a seu povo uma família de regentes, forte e bem estruturada.

Leonardo nem de longe era o tipo de homem por quem a agora princesa pensaria em fazer seu marido. Da cabeleira castanha ao olhar manso, nada nele o atraía - talvez, exceto, pela personalidade submissa que ela logo tratou de aprender a dominar. Quanto ao homem, bem, deixou que ela tomasse conta de si e não havia no mundo rei mais feliz (...)

O tempo passava sempre, e o casamento se seguiu sem maiores infelicidades do que as de qualquer outro casal. O primeiro filho nasceu na altura em que Leonardo agora era chefe da Casa Real, por ocasião da morte de seu pai em um acidente marítimo - Leonardo, por causa do pai, e Luís, pelo avô. O segundo nasceu pouco tempo depois e recebeu a graça de Eduardo. Eram os dois muito parecidos em tudo, fossem nos cabelos negros ou em seus modos, risonhos e demasiadamente encantadores. Isto parecia comover muito pouco a mãe, entretanto - amava-os, mas a maternidade (e muito menos seu casamento) não a impediu de aprender tudo o que tinha vontade de aprender, viajar para todos os lugares que desejava conhecer. Com isto, a primeira infância dos príncipes esteve, na maioria das vezes, sob a responsabilidade dos serviçais do palacete. Todavia, por uma pequena infelicidade que a vida pôs em seu caminho, acabou aproximando-se do filho caçula, cujo nascimento é o que mais nos interessa.


*blows u two kisses*